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Consciência negra: Rede Cruzada no combate ao racismo

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

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Desde a sua fundação, a Rede Cruzada prioriza a construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Por isso, trabalhamos continuamente no combate ao racismo, desigualdades e preconceito.

Acreditamos que valores devem ser repassados desde a primeira infância e buscamos promover a cultura antirracista dentro e fora do ambiente escolar.

Desde o ano passado decidimos extrapolar os conceitos e valores da instituição para além de nossos muros. Através das nossas rede sociais, elaboramos conteúdos, convidamos especialistas nos assuntos e dividimos um pouco de nossas práticas. Uma dessas ações foi promover lives com as educadoras antirracistas Clarissa Brito e Neusa Rodrigues, além de produzirmos e consumirmos outros conteúdos que enfatizam a importância e a necessidade da criança negra sentir-se pertencente ao ambiente e ao conteúdo educacional.

Hoje, em especial, vamos apresentar parte de um bate-papo realizado com a educadora e gestora escolar Neusa Rodrigues que vai nos falar como a educação pode auxiliar no combate ao racismo.

Como o ambiente familiar e escolar podem auxiliar no combate ao racismo?

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, apontam que 54% da população brasileira é negra.

Mesmo assim, presenciamos racismo, preconceito e desrespeito diariamente. Tanto é que a história e a cultura da raça ainda são deixadas de lado nas escolas e na literatura.

A Neusa Rodrigues traz diversas considerações sobre o assunto:

Qual é a importância da família nesse contexto?

Neusa: Quando a criança sai do seio familiar e vai para a unidade escolar, traz consigo muitos hábitos e aprendizados, que são os costumes, valores e a língua materna.

Ela já leva o começo de um desenvolvimento de base de personalidade e de identidade, ou seja, quando ela vai para a vida escolar, já traz com ela uma gama de experiências.

Esse é o papel da família.

Qual é o papel da escola enquanto agente educador na construção dessa cultura?

Neusa: Quando a criança vai para a escola e inicia esse ciclo de convivência e relações humanas diferentes da que ela viveu em casa, e para que ela saiba lidar com a diferença com equilíbrio, é preciso que ela tenha familiaridade com a diversidade.

Então, o papel da escola é estimular o respeito a essa diferença.

E isso a escola faz mostrando a cultura e fazendo com que a criança conheça outras histórias da formação do povo brasileiro, (…) então ela precisa conhecer as histórias dos negros que vieram para o Brasil.

A escola precisa mostrar a importância do negro na construção do nosso país. A criança precisa reconhecer a ancestralidade dela. Sendo a africana, a cultura dos originários, é o papel da escola promover a eliminação de qualquer tipo de preconceito, racismo ou discriminação.

Que a criança também aprenda a identificar marcas culturais africanas ou de outros grupos étnico-raciais.

Para você, quais são os pontos mais importantes na construção de uma educação antirracista?

Neusa: Eu costumo dizer que trabalhar essa educação antirracista não é importante somente para as crianças negras e indígenas.

Ela é importante para todos os pequenos, porque estamos pensando na formação desse adulto. E a criança negra se sente pertencente quando ela se vê dentro da sala de aula dela ou nos corredores, através de pessoas que ela olha e fala: são iguais a mim.

E na literatura, durante muitos anos, a criança só ouviu histórias de personagens que eram brancos.

Então, o que essa situação gera? A criança se sente não pertencente. Nós já temos uma sociedade que trabalhou durante muitos anos com esse racismo estrutural. O racismo que vivenciamos hoje foi estruturado, pensado. É responsabilidade nossa, da escola, desconstruir isso tudo, é desestruturar esse racismo.

E podemos fazer isso por meio da leitura, mesmo quando você pega uma história que fala de família.

Tem uma história chamada Tanto Tanto. Essa história não é brasileira, mas toda criança, desde o berçário, quando ouve essa narrativa fica olhando.

Isso acontece porque é a família dela, é avó, é o tio que chega. É o jeito de pensar dela. Nós negros temos uma diferença, a gente fala com o corpo, até nos moldamos no decorrer da nossa vida porque começamos a frequentar lugares que precisamos nos conter.

Mas isso é uma característica nossa que a gente traz da nossa ancestralidade de ser dançante, cantante e de falar com o corpo. Então, esse livro é muito importante em relação a isso.

Na sua opinião, como a educação antirracista durante a primeira infância pode impactar no desenvolvimento da criança?

Neusa: Mesmo nas crianças que ainda não falam, não leem e nem produzem, é preciso que a escola tenha esse olhar sensível para que consigamos intervir nesse fazer desse pequeno, nesse ser dessa criança, para que isso melhore.

Nosso trabalho é ser professor, é se dedicar, é ser pesquisador, vinte e quatro horas.

Estamos sempre aprendendo. Quando achamos que estamos ensinando, a gente está aprendendo muito mais do que ensinar.

As crianças estão ali, sinalizando o tempo todo, é o bebê que abre um sorriso quando você entra na sala ou aquele que fica olhando meio de lado, (…) tem aquela identificação que é aquela criança que escolhe você, são cinco dentro da sala, mas ela escolhe você.

Ela toma banho muito bem com você, come muito bem na sua companhia. Ela manifesta a preferência dela. Vamos respeitar isso.

Conte-nos um pouco sobre a sua experiência enquanto educadora.

Neusa: Minha trajetória sempre foi entre educação infantil e quarta série. Sempre gostei desses dois extremos e, quando eu trabalhava com dois horários, eu sempre peguei educação infantil de manhã, quarta série à tarde ou vice-versa.

E eu tive uma experiência na Mangueira em uma turma de terceira série. (…) Tinha muitas crianças que não tinham se apropriado nem do código linguístico, não tinham decodificado. Também não tinham escrita e nem leitura interpretativa.

(…) Mas quando eles contavam sobre a cultura que eles vivenciavam naquela comunidade, que era o samba, eles falavam muito bem. Sem titubear. Conversar era maravilhoso e aí um dia eu falei: eu vou pegar daí.

Aí como tinham crianças que já tinham o passaporte carimbado três vezes, já tinham saído do Brasil e conhecido três países através da bateria (…) me torno escritora. Escrevo um livro para eles.

(…) Digo para eles, vocês não têm noção da cultura que possuem, da importância que têm. Eles tinham contato com Chico Buarque e outras personalidades que iam para lá porque tinham paixão por aquilo. Eu fazia eles entenderem a importância de tudo. E aí essa turma eu aprovei toda para quarta. (…) Peguei a quarta série e escrevi esse livro e dei para eles de presente.

Na verdade, eles que me deram de presente, (…) a partir dessa cultura deles eu começo a desenvolver textos. Começo a pegar os sambas enredos e trabalhar com eles.

Assim, o que eu tirei disso tudo, é que a escola tem que ter esse olhar atento, esse ouvido sensível para ver o que essa criança está trazendo, e o que eu posso aproveitar do que ela traz para eu desenvolver o “conteúdo” a ser dado, socializado com eles.

Quer dizer que o papel do professor é fazê-los tomar pé dessa cultura, mas também repensar que cultura é essa. Qual é a cultura que eu vou privilegiar neste momento?

Há algum material ou conteúdo que você indique para quem deseja saber mais sobre o assunto?

Neusa: Eu costumo dizer que a literatura infantil é uma grande aliada, principalmente a literatura negro-brasileira de encantamento, chamada assim por Kiusam de Oliveira, já a Sonia Rosa denomina de literatura de afeto.

Ter esse acervo potencializado dentro da unidade é muito importante, porque as histórias contribuem para aguçar a imaginação das crianças e oportunizar através do lúdico esses conceitos, como diferença, respeito, amizade e também a importância da valorização da cultura negra dentro da nossa história.

A escola tem que criar espaços também para manifestações artísticas que estão proporcionando uma relação crítica da realidade, afirmação positiva dos valores culturais negros, bem como o resgate de herança africana, cuja história está normalmente esquecida e ignorada até agora. Então, é o papel da escola resgatar isso.

Agora que você acompanhou a mensagem da Neusa Rodrigues sobre como a educação pode auxiliar no combate ao racismo, que tal assistir a live completa organizada pela Rede Cruzada sobre o assunto?

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